O que falta para reconhecermos que a ação impatriótica do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro está surtindo efeito e que há uma escalada do governo Donald Trump contra o Brasil? Essa escalada, aliás, não é exclusiva, mas se espalha globalmente, excetuando regimes autoritários que promovem genocídios para criar resorts de luxo em Gaza ou que oferecem aviões de ponta e boas oportunidades de negócios a Trump.
Três episódios recentes deixam clara essa ofensiva contra o Brasil. O mais recente envolve o secretário de Estado, Marco Rubio, que mencionou a “grande possibilidade” de aplicar a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes. Isso ocorre após pressões para que o Brasil desrespeite suas próprias leis, classificando PCC e Comando Vermelho como “terroristas”, além da oferta da embaixada americana de um prêmio de US$ 10 milhões para brasileiros que denunciarem a presença do Hezbollah na Tríplice Fronteira.
Essas ações são deselegantes, desrespeitosas e violam as normas diplomáticas internacionais, configurando ingerência em assuntos internos e ameaças à soberania nacional. Não é surpresa que irritem o Planalto, o Supremo, o Itamaraty, as Forças Armadas, o Ministério da Justiça, a Polícia Federal, parte do Congresso e, espera-se, a opinião pública nacional.
Qual é o objetivo de Trump? E o que pretendem os Bolsonaro ao difamar instituições brasileiras e instigar a maior potência mundial contra a Pátria que afirmam defender? Seria para tentar livrar o chefe do clã de uma possível prisão ou uso de tornozeleira eletrônica? Deus, Pátria, Família? Parece que não.
Na prática, a ameaça a Moraes inclui proibi-lo de entrar nos EUA, congelar seus bens, cancelar contas bancárias e cartões de crédito com bandeira norte-americana, além de encerrar suas contas digitais, como Gmail, YouTube e Globoplay. Por enquanto, é apenas uma ameaça, mas feita pelo secretário de Estado, o que não pode ser ignorado.
A pressão para classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas é inadequada. Isso não significa ser leniente com essas organizações, mas a legislação brasileira diferencia grupos criminosos de terroristas, reservando essa classificação para crimes motivados por ideologias, política ou religião. Não há vozes, nem na diplomacia nem na polícia, que defendam ceder a essa pressão. Afinal, quem são os americanos para ditar o que o Brasil deve fazer? A ideia de “quintal dos EUA” é ultrapassada, mesmo que ainda viva na cabeça de Trump e seus aliados, incluindo brasileiros.
E o prêmio de US$ 10 milhões para quem denunciar a presença do Hezbollah na Tríplice Fronteira? Uma provocação e um desrespeito ao governo brasileiro, à Polícia Federal e aos órgãos de inteligência. Basta que algum oportunista alegue ter visto um “terrorista” para que o caos se instale.
O diretor-geral da PF, Andrei Passos, tem uma reunião marcada na região na próxima semana para discutir ações conjuntas. Coincidentemente, ou não, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, recebeu recentemente o comandante do Exército da África do Sul e o do Comando Sul dos EUA. Para o sul-africano, houve salva de tiros, tapete vermelho e coquetel. Para o americano, apenas água, café e pão de queijo. A explicação oficial? O sul-africano tem cargo equivalente ao do general Tomás, enquanto o americano é “apenas” comandante de área. Apesar das formalidades, as relações estão desgastadas, com confiança abalada e um clima cada vez mais azedo.
Fonte: Estadão












