O mercado voluntário de carbono tem potencial para alcançar maior maturidade com a criação de um sistema formal que permita países e empresas adquirirem créditos para compensar suas emissões. Durante a COP29, realizada em Baku (Azerbaijão) neste mês, diplomatas climáticos alcançaram um acordo que destrava discussões paralisadas há cerca de uma década.
Embora ainda existam pontos pendentes sobre o artigo que estabelece esse mecanismo no Acordo de Paris, especialistas do setor acreditam que uma decisão final pode reduzir a volatilidade nos preços dos créditos de carbono. Isso se deve à previsão de que a ONU passe a atuar como certificadora desses créditos, conferindo mais credibilidade e equilíbrio ao mercado. Apenas os créditos certificados pela ONU poderão ser comercializados entre nações.
Um crédito de carbono corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono (ou equivalente em outros gases) que foi retirada da atmosfera ou cuja emissão foi evitada. No Brasil, a geração desses créditos ocorre principalmente em projetos de preservação florestal, em especial na Amazônia. Globalmente, existem pelo menos oito categorias de créditos, incluindo iniciativas como fogões a lenha mais eficientes.
As empresas que desejam mitigar sua pegada de carbono compram esses créditos para compensar emissões e declarar-se “carbono neutro”. Em 2021, o mercado alcançou um recorde, com a venda de 516 milhões de créditos, somando US$ 2,1 bilhões. No entanto, em 2023, o volume caiu para 111 milhões de créditos, gerando US$ 723 milhões. A retração reflete a desconfiança de ambientalistas e cientistas, que criticam o mecanismo como um incentivo à manutenção de práticas poluentes.
O mercado também sofreu mudanças. Em 2020, a maioria dos créditos provinha de projetos de energia renovável, mas esse perfil mudou quando certificadoras deixaram de validá-los devido à viabilidade econômica do setor. Hoje, projetos comunitários, como o uso de biogás em fogões, lideram o mercado. Os créditos florestais, comuns no Brasil, ocupam o terceiro lugar em volume, mas são os mais valorizados.
A origem do crédito também afeta o preço. Projetos de reflorestamento, por exemplo, geram créditos mais caros do que iniciativas de conservação florestal. No Brasil, esses créditos custam, em média, US$ 8,8, enquanto na Etiópia chegam a US$ 18, segundo a Viridios.
A falta de regulação é um entrave, dificultando o monitoramento de preços e negociações, que muitas vezes são privadas e pouco transparentes. Especialistas esperam que a certificação da ONU traga maior organização e confiabilidade, incentivando a comoditização dos créditos e a estabilização dos preços. Ainda assim, para o Brasil, ajustes internos serão necessários para integrar o mercado global de carbono.
Apesar das dificuldades, os preços médios dos créditos têm aumentado, impulsionados pela exigência de maior qualidade nos projetos. Esse avanço foi motivado por investigações jornalísticas, como as do The Guardian, que colocaram em dúvida a integridade de parte do mercado, levando certificadoras como a Verra a adotar critérios mais rigorosos.












