O impasse que envolve a Petrobras e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em torno da Margem Equatorial, considerada uma espécie de segundo pré-sal, é o exemplo clássico da luta contínua para equilibrar a produção de energia e a proteção ambiental, diz o economista Kenneth Medlock III, diretor sênior do Centro de Estudos sobre Energia da Rice University.
Se a licença para os testes exploratórios não for concedida, o País pode perder dos dois lados, avalia. “O Brasil perderá a oportunidade de gerar riqueza monetizando seus recursos petrolíferos”, diz Medlock, Além disso, o apetite estrangeiro pelo Brasil pode ser impactado, alerta.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realiza no mês que vem um leilão, no qual 47 blocos estão na Bacia da Foz do Amazonas, justamente onde a Petrobras tenta perfurar o primeiro poço após ter o seu pedido negado pelo Ibama, em 2023.
As incertezas desencadeadas pelas tarifas de Donald Trump têm pressionado os preços do petróleo para baixo. Como as empresas do setor devem se preparar para esse novo ambiente?
As tarifas estão aumentando as incertezas e gerando uma perspectiva negativa para a economia global. Dada a centralidade dos EUA e da China, os dois maiores consumidores mundiais de petróleo, as perspectivas de demanda não são boas. Além disso, as ações da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) para flexibilizar as restrições à produção de petróleo ajudam a impactar o preço negativamente. As empresas devem se concentrar, no curto prazo, em manter a disciplina de capital e aprimorar a eficiência operacional. Outras inovações para redução de custos também devem ser aceleradas. Isso manterá os balanços patrimoniais saudáveis, permitirá que as empresas identifiquem oportunidades lucrativas de consolidação e viabilize o crescimento a longo prazo.
Como o sr. vê a importância da descoberta de novas áreas para o setor energético e o desenvolvimento econômico dos países; em especial, emergentes como o Brasil?
Isso é muito importante. Em períodos de pressão nas margens, os esforços de exploração mais inovadores facilitam o crescimento futuro. Mesmo que a demanda permaneça estagnada, novas descobertas serão necessárias para compensar o declínio na produção dos campos existentes. Portanto, novas áreas serão importantes para manter o equilíbrio do mercado.
No Brasil, a Petrobras tenta obter a licença ambiental para iniciar os testes exploratórios na Margem Equatorial. Como o sr. avalia esse impasse?
Este é um exemplo clássico da luta contínua para equilibrar a produção de energia e a proteção ambiental. A demanda por petróleo não está desaparecendo, portanto, a Petrobras precisa demonstrar que pode expandir sua produção e, ao mesmo tempo, ter um forte compromisso ambiental em suas atividades.
Quais são os riscos se a exploração na Margem Equatorial não for aprovada, considerando que esta é uma das novas áreas mais promissoras para o Brasil repor suas reservas de petróleo na próxima década?
O Brasil perderá a oportunidade de gerar riqueza monetizando seus recursos petrolíferos. Ironicamente, a exploração dos recursos petrolíferos estimados na região poderia fornecer financiamento para reduzir a remoção ilegal de madeira e outras mudanças no uso da terra, o que seria positivo sob a perspectiva ambiental.
O Brasil terá no mês que vem um novo leilão de petróleo, sendo a maioria na Bacia da Foz do Amazonas. O apetite do estrangeiro, caso o aval para a Margem Equatorial não venha, poderia estar em risco?
O capital estrangeiro não estará em risco, mas o País pode não ser tão atraente para esses investidores. Se a Margem Equatorial for liberada para exploração, o capital estrangeiro terá melhores oportunidades no Brasil. Sem o aval para a região, o interesse estrangeiro poderá se reduzir, voltando-se a áreas mais promissoras.
Levando em conta que a Guiana obteve sucesso do seu lado da Margem Equatorial, a região pode servir de catapulta ao desenvolvimento econômico do País?
As avaliações de recursos na área parecem positivas. Mas é preciso comprovar que esse potencial é comercialmente viável antes que possamos dizer se será transformador para o Brasil. Se a exploração e a avaliação mostrarem que o recurso é comercialmente atraente, será um enorme benefício para o Brasil.












