O esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias do INSS utilizava centrais de telemarketing para aplicar golpes de cobrança de mensalidades nos aposentados e também para lidar com as inúmeras reclamações sobre deduções feitas diretamente na folha de pagamento dos benefícios, sem autorização dos segurados. As centrais de telemarketing eram altamente organizadas, com equipes treinadas para convencer os aposentados da legitimidade dos descontos, usando argumentos persuasivos e frequentemente pressionando os idosos a aceitarem os débitos como legítimos.
Uma telefonista que trabalhou no setor de atendimento aos aposentados filiados às entidades suspeitas, uma espécie de SAC das fraudes, revelou como era instruída por seus superiores a lidar com as queixas dos beneficiários prejudicados. Ela concordou em falar com a reportagem sob condição de anonimato por temer represálias. Segundo ela, as instruções eram claras: desviar as queixas, minimizar a importância dos descontos e, em alguns casos, até prometer reembolsos que nunca seriam realizados.
De acordo com a funcionária, em diversas ligações, os idosos relatavam que suas aposentadorias eram descontadas há muito tempo, sem terem assinado qualquer contrato. Muitos desses descontos eram descobertos pelos filhos dos aposentados, que percebiam as irregularidades ao revisar as contas dos pais. A situação gerava grande indignação e preocupação nas famílias, que muitas vezes não sabiam a quem recorrer para resolver o problema.
Até a deflagração da Operação Sem Desconto pela Polícia Federal em 23 de abril, ela trabalhava para as operadoras de telemarketing Callvox e Truetrust Call Center, que operavam no mesmo prédio em Brasília e contavam com centenas de funcionários. A maioria foi contratada no final de 2023, período que coincide com o auge dos descontos indevidos. As empresas eram conhecidas por oferecerem bônus e comissões aos funcionários que conseguissem manter os descontos ativos, incentivando práticas antiéticas.
Foi em dezembro de 2023 que uma série de reportagens começou a revelar as fraudes no INSS, fundamentando a megaoperação da PF contra o desvio. As investigações mostraram que o esquema envolvia não apenas operadores de telemarketing, mas também funcionários do INSS que facilitavam o acesso a dados dos segurados, permitindo que os golpistas realizassem os descontos sem autorização. A operação resultou na prisão de vários envolvidos e na recuperação de parte do dinheiro desviado, trazendo alívio para muitos aposentados que finalmente puderam ver suas aposentadorias livres de cobranças indevidas.
SAC das fraudes
Segundo a funcionária do call center, quem atua no dia a dia da central de atendimento é Adelino Rodrigues Junior, que tem procuração legal para se posicionar em nome da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), uma das entidades investigadas na farra do INSS.
Conhecido como Junior pelos funcionários das empresas de telemarketing, ele foi responsável por pagamentos à esposa do ex-procurador do INSS. Outras pessoas mencionadas, como uma espécie de gerente das empresas de telemarketing, também aparecem nas investigações da PF envolvidas em transferências suspeitas.
Eles recebiam um roteiro de atendimento aos aposentados que ligavam para as associações para reclamar que não haviam autorizado os descontos. O procedimento do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) era repetido para atender a diversas entidades envolvidas no esquema.

A orientação inicial era informar aos aposentados que o dinheiro seria devolvido, solicitando um prazo de 10 dias para o reembolso. Conforme a telefonista, nos primeiros meses, alguns valores foram realmente devolvidos. Contudo, desde novembro de 2024, os funcionários passaram a ser instruídos a estender o prazo, primeiro para 20 dias e, posteriormente, para 30 dias. Ela suspeita que, nesse período, os ressarcimentos se tornaram menos frequentes.
Além de seguir o “script”, os funcionários dos call centers recebiam outras instruções, como afirmar aos aposentados que os descontos poderiam ser autorizados pelos filhos dos beneficiários ou apenas ao clicarem em um link recebido por WhatsApp. Os funcionários eram organizados em grupos de cerca de 20 pessoas para atender às associações. A telefonista menciona pelo menos três entidades que aparecem nas investigações da PF: CBPA, Associação Brasileira dos Contribuintes do Regime Geral de Previdência Social (Abrasprev) e Associação Brasileira dos Aposentados e Pensionistas da Nação (Abapen).
A CBPA, por exemplo, não havia realizado nenhum desconto de aposentadoria até 2022, mas no ano seguinte ficou entre as três entidades envolvidas no esquema, registrando o maior aumento de arrecadação com cobranças de mensalidades, chegando a faturar R$ 57,8 milhões. Citadas pela PF, tanto a Abrasprev quanto a Abapen foram excluídas da ação da Advocacia-Geral da União (AGU), que solicitou o bloqueio de R$ 2,56 bilhões de 12 entidades alvo de processo de responsabilização por suspeita de pagarem propina a diretores do INSS ou serem de fachada. A CBPA é alvo da AGU.












