As exportações da Bahia para os Estados Unidos devem sofrer perdas de pelo menos US$ 65 milhões (cerca de R$ 379,6 milhões) devido ao aumento tarifário imposto por Donald Trump, que estabeleceu uma taxa mínima de 10% para produtos brasileiros. Segundo Arthur Souza Cruz, coordenador de Acompanhamento Conjuntural da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), a indústria será o setor mais afetado.
Atualmente, a Bahia e os Estados Unidos mantêm uma relação comercial que movimenta mais de US$ 3,7 bilhões (aproximadamente R$ 21,6 bilhões) anualmente. Em 2024, a Bahia exportou US$ 882 milhões em produtos para os EUA, o que representa cerca de R$ 5,1 bilhões, tornando os Estados Unidos o segundo maior parceiro comercial do estado, atrás apenas da China, com US$ 4,36 bilhões. Os dados são da SEI.
Em 2024, os Estados Unidos foram o terceiro maior destino dos produtos baianos, com compras de US$ 882,1 milhões, atrás de China e Singapura. Entre os cinco principais produtos exportados para os norte-americanos, quatro pertencem ao setor industrial: dois tipos de celulose, borracha e benzeno. Esses produtos representam 40% dos valores exportados e não devem ser os mais impactados pelas tarifas, já que a pressão maior recai sobre o ferro e o aço.
O aumento tarifário se deve ao fato de que, no mês passado, Donald Trump já havia imposto tarifas de 25% sobre o aço e o alumínio importados. Com o adicional de 10% anunciado na semana passada, as tarifas sobre ferro e aço exportados pela Bahia somam 35%, resultando em perdas significativas para a indústria baiana.
“De fato, é o setor mais prejudicado”, afirma Arthur Souza Cruz. No entanto, ele não vê motivos para pessimismo excessivo. “As exportações baianas de ferro e aço representaram apenas 8% das vendas para os EUA em 2024 e 0,54% do total das vendas externas do estado no mesmo ano. Há espaço para negociação, que o governo brasileiro prioriza antes de qualquer retaliação”, ressalta.
Efeitos
Em escala global, o tarifaço de Trump fez com que os mercados financeiros reagissem de imediato, derrubando bolsas de valores em todo o mundo. A movimentação traduziu o clima de incerteza em relação à economia mundial, que pode entrar em recessão diante dos desdobramentos do protecionismo americano e das respostas a ele. A China, por exemplo, que decidiu impor 50% de taxas aos EUA, agora pagará taxas de até 104% ao país norte-americano.
O economista Uitan Maciel analisa que, apesar do impacto ter sido menor no Brasil – tendo em vista que alguns países tiveram taxação de 50%, há impactos negativos dos quais os brasileiros não conseguirão fugir. “Haverá redução da competitividade, visto que os produtos brasileiros ficam mais caros nos EUA, perdendo espaço para concorrentes; queda nas exportações, que impacta diretamente o PIB, empregos e arrecadação de estados exportadores”, aponta.
Outro impacto negativo é na produção industrial. Na perspectiva do especialista, a taxação de peso contra o ferro e o aço pode desestimular a produção industrial diante da menor demanda. Isso vale para a Bahia, cuja fabricação de ambos os produtos é direcionada para o mercado exterior. O ferro baiano, inclusive, foi um dos produtos mais exportados para o Canadá no ano passado.
No que tange à celulose, produto baiano mais exportado para os Estados Unidos, o efeito do tarifaço recai quanto à competitividade, que deve ficar mais acirrada com país como Canadá e Chile. O benzeno, por sua vez, é um produto químico sensível à nova política tarifária norte-americana. “Ele pode ser substituído por fornecedores locais americanos, reduzindo espaço brasileiro”, alerta Uitan Maciel.
Para Carlos Henrique Passos, presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), o momento atual exige cautela e atenção para os movimentos que estão acontecendo. “A maior ameaça para a indústria brasileira é o fato de que todos os países que não puderem exportar para os Estados Unidos vão mirar a exportação para outros mercados e o Brasil, por sua dimensão, pode ser um deles”, ressalta.
“Outro setor que deverá ser afetado é o agro, em especial a exportação de soja e algodão. Ainda não temos como saber qual será a extensão dos impactos dessa guerra de tarifas iniciada pelos Estados Unidos, mas estamos falando de um cenário de tensão instalada que afeta o humor do setor produtivo e da sociedade como um todo”, completa o presidente da Fieb.
Em proporção bem menor, a exportação de manga e derivados do cacau também deve ser impactada, porque são produtos agrícolas com margem apertada, logo, pequenas tarifas já diminuem as chances deles se tornarem competitivos. O mesmo ocorre com a borracha, que já enfrenta a concorrência asiática.
O que acontece se houver retaliação?
Antes mesmo de Donald Trump anunciar o pacote tarifário mundial, a Câmara dos Deputados havia aprovado, em caráter de urgência, o pedido para votar o projeto que permitia que o Brasil pudesse retaliar os Estados Unidos, isto é, impor as mesmas taxas que viesse a receber. No entanto, após o anúncio da taxação mínima de 10%, o governo brasileiro não deu sinais de seguir adiante com o plano.
Na perspectiva do economista Uitan Maciel, a possibilidade de retaliação é mínima, mas não nula. “O Brasil costuma adotar postura conciliadora, evitando medidas que possam prejudicar a balança comercial. Mas se houver pressão interna, seja da política ou de setores econômicos, a retaliação pontual é possível”, afirma.
Caso haja retaliação, o cenário fica mais tenso e a relação entre Bahia e Estados Unidos mais delicada. “Teríamos como efeito aumento de tensões comerciais, prejudicando exportadores de ambos os lados; produtos americanos mais caros em todo o país, impactando consumidores e empresas brasileiras que dependem desses itens; e risco de escalada, que pode afetar setores que nada têm a ver com o conflito original”, completa o economista.
Nesse cenário, a Bahia teria como únicas saídas para compensar a atual relação com os EUA o direcionamento de foco maior para outros mercados, situados no Oriente. Atualmente, os mercados que mais importam produtos baianos são os da China e Singapura, ambos asiáticos.












