Especialistas avaliam que um novo confronto comercial entre China e Estados Unidos, caso Donald Trump seja reeleito, pode abrir novas oportunidades para o agronegócio brasileiro, embora os impactos possam ser menos intensos do que os observados na disputa de 2018.
Se a China decidir retaliar os EUA com tarifas sobre produtos agrícolas, o Brasil poderia expandir sua fatia no mercado chinês em produtos como soja, algodão, milho e carnes, embora o apetite chinês já esteja mais limitado em comparação aos anos anteriores.
Soja: Produto Principal e Sinais de Saturação
A soja, o principal produto de exportação brasileiro, já representa 75% da demanda chinesa. No entanto, a recente promessa de Trump de impor uma tarifa de 60% sobre produtos chineses gerou um aumento nos prêmios da soja nos portos brasileiros, sinalizando uma expectativa de redirecionamento da demanda chinesa para o Brasil.
O professor Lucílio Alves, da Esalq/USP, explica que esse aumento reflete a possível migração da demanda para o Brasil em caso de novas tarifas. “Se a demanda se deslocar para o Brasil, teríamos que ajustar os preços para cima”, diz ele. Caso as exportações de soja dos EUA para a China sejam dificultadas, os preços no Brasil poderiam subir devido à necessidade de equilibrar a oferta e demanda.
Histórico e Evolução do Mercado
Durante a guerra comercial de 2018, o Brasil já era o maior exportador de soja, com o volume de exportações crescendo expressivamente devido às tarifas impostas aos EUA. Produtos como algodão e carnes também foram beneficiados na época. Em 2022, o Brasil firmou um acordo que permitiu a exportação de milho para a China, tornando o país um dos principais destinos para o cereal brasileiro.
“Se a China parar de comprar dos EUA, isso é positivo para o Brasil”, afirma Alves, mencionando o milho e as carnes como potenciais beneficiados.
Impacto Relativo: Menores Ganhos?
Em relação à soja, o Brasil aumentou sua participação nas importações chinesas em 20 pontos percentuais entre 2017 e 2023, enquanto os EUA reduziram sua fatia. No entanto, Fernando Muraro, da AgRural, pondera que, apesar do crescimento da exportação e da produção brasileiras nos últimos cinco anos, a China agora apresenta sinais de estagnação em seu consumo. Em 2022, o Brasil exportou 74,5 milhões de toneladas de soja para a China, comparado aos 53,8 milhões de toneladas antes da guerra comercial.
Além da soja, o algodão brasileiro também teve um salto significativo nas exportações para a China, aumentando quase dez vezes no mesmo período, assim como a carne bovina, que quintuplicou em volume entre 2017 e 2023. As exportações de frango e carne suína também tiveram crescimentos expressivos.
Influência do Dólar
Apesar do mercado chinês já ser um dos principais destinos da soja brasileira, os prêmios portuários aumentaram desde que Trump anunciou a intenção de elevar as tarifas. Os prêmios para embarques em fevereiro de 2025 subiram de 85 para 105 centavos de dólar sobre Chicago, refletindo uma reação do mercado.
As políticas protecionistas de Trump e seu foco em fortalecer a economia americana podem valorizar o dólar globalmente, afetando a demanda por commodities. Segundo Felipe Jordy, da Biond Agro, esse aumento no dólar tende a elevar os custos de importação de insumos, principalmente fertilizantes, dos quais o Brasil importa mais de 85% de suas necessidades, o que pode ser um desafio para o setor agrícola nacional.
Jordy alerta que a política “America First” de Trump pode restringir o acesso dos produtos agrícolas brasileiros ao mercado dos EUA, destacando a importância de observar o impacto para as exportações de proteínas, dado que os EUA são o segundo maior importador de carne bovina brasileira, atrás apenas da China.












