O próximo presidente dos Estados Unidos enfrentará o desafio de fortalecer as alianças com a América Latina e o Caribe, especialmente em um momento em que a presença da China na região se expande cada vez mais. Historicamente, os Estados Unidos mantiveram profundos laços políticos, econômicos e culturais com os países latino-americanos, além de serem uma das principais fontes de investimentos na região. No entanto, a partir do início do século XXI, a atenção de Washington se voltou para o Oriente Médio e o Sudeste Asiático, reduzindo o foco nos vizinhos ao sul.
Esse afastamento abriu espaço para que a China se consolidasse como um importante parceiro econômico da América Latina, principalmente ao oferecer empréstimos e tornar-se o principal parceiro comercial de países como o Brasil. Entre 2010 e 2021, o comércio entre Pequim e a região cresceu 130%, com um aumento médio anual de 8%.
Embora a eleição não altere de forma drástica as relações entre os Estados Unidos e a América Latina, alguns impactos são esperados. Em um governo liderado por Kamala Harris, as relações tendem a ser mais diplomáticas e focadas em temas como meio ambiente, energia e democracia. Por outro lado, uma administração Trump poderia implicar um retorno da América Latina à agenda de Washington, mas talvez com um tom mais agressivo em temas como imigração e tarifas sobre setores estratégicos, como o agropecuário e a mineração.
Durante o governo Trump, por exemplo, os empréstimos à América Latina por instituições como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, influenciadas por Washington, superaram os investimentos chineses. No entanto, um novo governo republicano pode dificultar a negociação para alguns países, como o México, que em 2026 deve revisar o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) e enfrentar pressões sobre as reformas no setor elétrico, criticadas por EUA e Canadá.
O principal desafio para os EUA na relação com a América Latina é recuperar a confiança e demonstrar o valor dessa aliança. Embora 70% dos latino-americanos ainda vejam os EUA de forma positiva, cresce a percepção de que os benefícios da parceria com Washington são menores do que os obtidos em outros tempos. A ex-secretária de Estado Condoleezza Rice alertou para a importância de uma estratégia de longo prazo na região, que mostre compromisso com temas importantes para os países do Sul Global.
Ambos os partidos parecem entender essa necessidade, evidenciada pelas frequentes visitas de altos funcionários americanos à região. No entanto, o próximo ocupante da Casa Branca precisará provar aos latino-americanos que os Estados Unidos são um parceiro de valor, caso contrário, a tendência é que países da América Latina busquem cada vez mais se aproximar da China, atraídos pelas oportunidades oferecidas pela potência asiática.












