O governo brasileiro finalmente vai reagir às recentes ações e declarações da ditadura de Nicolás Maduro, alguns de seus funcionários e até mesmo da Polícia Nacional da Venezuela que, na última quinta-feira, postou na rede social Instagram uma imagem com uma bandeira brasileira e, ao fundo, a silhueta de um homem semelhante ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas com seu rosto e contornos borrados. A imagem conta ainda com a frase “Quem se mete com a Venezuela se dá mal”.
Segundo fontes oficiais, será divulgada uma nota através do Itamaraty na qual o Brasil expressará surpresa e desagrado pelo tom agressivo das recentes falas de altos funcionários venezuelanos, sem entrar em detalhes, nem dar nomes. “Sem cair em provocações, frisou a fonte, o Brasil deixará claro que as declarações e expressões em Caracas sobre o governo brasileiro e suas autoridades “não estão em linha com a forma respeitosa como devemos tratar nossas divergências”. O texto está sendo revisado.
Na visão de funcionários do governo brasileiro ouvidos pelo GLOBO, falas e posicionamentos da ditadura de Maduro “perderam o sentido da realidade”.Até agora, o governo Lula vinha tolerando todos os ataques vindos de Caracas, mas a imagem divulgada nesta quinta pela Polícia Nacional da Venezuela levou o Palácio do Planalto e o Itamaraty a decidirem reagir. Na opinião das fontes consultadas, o post da polícia venezuelana “ataca um símbolo nacional”, além de sugerir uma imagem similar a de Lula.
As mesmas fontes afirmaram que “uma coisa é criticar, ainda que sem fundamento, autoridades ou até mesmo instituições de governo”. Até esse ponto, acrescentou uma das fontes, “poderíamos deixar os venezuelanos falando sozinhos”. Mas o ataque a um símbolo nacional, como é a bandeira brasileira, elevou a crise de patamar, e levou o Brasil a decidir abandonar o silêncio.
A reação do Brasil será equilibrada, afirmaram as fontes, e não repudiará nenhuma declaração ou ação em particular. O Brasil, frisaram as fontes, “não quer escalar”. Mas, acresceram as mesmas fontes, “não podia tolerar ataques que passaram dos limites”.
Nos últimos dias, a escalada de tensão entre os dois países atingiu níveis inéditos desde que Lula voltou ao poder, em janeiro de 2023. Depois de um primeiro ano marcado pela tentativa do Brasil de recompor o vínculo com a Venezuela, as tensões começaram no final do ano passado, em meio às ameaças de Maduro de invadir a Guiana e recuperar o território do Essequibo. A relação foi se desgastando, e entrou em crise após a eleição presidencial de 28 de julho.
O Brasil não reconheceu o resultado divulgado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e, desde então, fez várias demandas à ditadura de Maduro, entre elas a entrega das atas eleitorais que confirmariam uma nova reeleição do ditador. As atas nunca apareceram e, semana passada, o Brasil se opôs à entrada da Venezuela ao Brics (formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul).
Desde então, a tensão cresce diariamente. Maduro atacou o Itamaraty, e seu governo chamou para consultas o embaixador em Brasília, Manuel Vadell. Em nota oficial, a ditadura venezuelana expressou “a mais firme rejeição às recorrentes declarações de ingerência e grosseiras de porta-vozes autorizados pelo governo brasileiro, em particular do assessor especial para Assuntos Externos, Celso Amorim, que, comportando-se como mais um mensageiro do imperialismo norte-americano, dedicou-se de forma impertinente a emitir julgamentos de valor sobre processos que cabem apenas aos venezuelanos e venezuelanas e suas instituições democráticas”.
Em Caracas, o encarregado de Negócios da embaixada brasileira foi convocado para dar explicações pela chancelaria venezuelana.












