O presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, afirmou nesta terça-feira que o Brasil segue em um processo de desinflação, mas alertou para ameaças que podem comprometer essa trajetória. A fala ocorreu durante a Lide Brazil Conference London, evento realizado pela Lide em parceria com o UOL e a Folha de S.Paulo, que reuniu lideranças políticas e empresariais para debater os desafios econômicos globais.
Segundo Campos Neto, o avanço da desinflação é visível nos preços de bens, mas a inflação de serviços permanece alta, o que dificulta uma queda consistente dos índices de preços. “Para que a desinflação continue, é essencial que a inflação de serviços comece a diminuir”, afirmou o presidente do Banco Central, ressaltando que a persistência desse setor é um dos principais obstáculos para alcançar a meta de inflação no Brasil e em outros países.
Contexto Internacional e Política Americana
Durante sua participação, Campos Neto também abordou o impacto da política econômica dos Estados Unidos no cenário global. Ele destacou três temas que afetam diretamente a inflação mundial: questões fiscais, protecionismo e imigração. “Há um consenso, tanto entre republicanos quanto democratas, sobre a necessidade de políticas fiscais expansionistas, além de uma postura protecionista e restritiva na questão migratória”, explicou. Segundo ele, esses fatores aumentam a pressão sobre os preços globais e afetam diretamente as economias emergentes como o Brasil.
Transição Energética e Impacto na Inflação
Outro ponto levantado por Campos Neto foi o aumento na demanda por energia, impulsionado pelo desenvolvimento de data centers e tecnologias como inteligência artificial. Segundo o presidente do Banco Central, a transição para fontes de energia sustentáveis tem aumentado os custos energéticos. “O crescimento da demanda energética, somado ao movimento de transição verde, pressionou ainda mais o preço da energia e representa um desafio inflacionário adicional”, disse ele.
China e o Comércio Global
Campos Neto também analisou o papel da China na economia global, ressaltando que o país enfrenta um momento de transformação, com queda no consumo doméstico e esforços para investimentos como exportações. Ele afirmou que diversos países vêm impondo restrições a setores estratégicos chineses, o que impacta o crescimento econômico da China e afeta o comércio global. “As restrições internacionais têm dificultado a expansão de setores estratégicos para a China, o que gera efeitos em cadeia no comércio mundial”, comentou.
Pós-Pandemia e Envelhecimento Populacional
O presidente do Banco Central alertou para o aumento expressivo do endividamento global desde a pandemia, especialmente em países emergentes e em desenvolvimento. Segundo ele, os países ricos gastaram cerca de 22% do PIB em medidas de combate à pandemia, enquanto os emergentes gastaram 10% e os mais pobres, 4%. Este cenário, somado à elevação das taxas de juros globais, cria dificuldades para o financiamento das necessidades econômicas das nações vulneráveis.
Ele também destacou a baixa natalidade em economias como a China, apontando que a queda nas taxas de crescimento populacional pressionou os governos a implementarem reformas estruturais focadas em produtividade e oferta para sustentar o crescimento econômico.
O Lide Brazil Conference London contou também com a participação do ex-presidente Michel Temer, do ex-governador de São Paulo João Dória e dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (em vídeo), e do Senado, Rodrigo Pacheco.












