O CEO da Vale, Gustavo Pimenta, vê na China e no Japão mercados estratégicos, destacando o pragmatismo e a estabilidade comercial dessas nações em um momento de incerteza no comércio internacional. Durante sua visita a esses países, ele ressaltou que essa relação estável é extremamente positiva para a companhia.
A declaração foi uma resposta a questionamentos sobre a imprevisibilidade gerada pelos Estados Unidos, especialmente com a guerra tarifária iniciada pelo então presidente Donald Trump. Em entrevista concedida em Pequim, antes de seguir para Tóquio, Pimenta afirmou que a estabilidade se estende a toda a Ásia, uma região que avalia como “muito estável”.
“O Japão continua sendo um mercado importante para nós, por isso mantemos um contato próximo com nossos clientes japoneses”, afirmou. “Eles já foram o principal mercado da Vale até serem ultrapassados pela China, mas seguem fundamentais, especialmente no setor de minério de ferro.”
Pimenta admitiu que inicialmente esteve apreensivo em relação à China. Apenas três meses após assumir o cargo de CEO, em agosto, visitou o país e saiu preocupado com a incerteza sobre o anúncio e a magnitude das medidas de estímulo econômico. No entanto, sua recente passagem por Pequim e Xangai trouxe uma visão mais otimista. “Conversando com clientes, ministros e outros stakeholders relevantes, percebi uma melhora significativa no sentimento de mercado”, relatou. Segundo ele, os clientes chineses já observam uma recuperação na demanda.
Outro fator positivo foi a recente Assembleia Nacional Popular da China, que reafirmou a meta de crescimento do PIB de aproximadamente 5% para 2024, além de um aumento no suporte fiscal de 3% para 4%. “São sinais concretos de apoio à economia”, disse Pimenta, destacando o compromisso do governo chinês, reforçado pelo primeiro-ministro Li Qiang no Fórum de Desenvolvimento da China.
A busca por estabilidade também foi tema de discussão entre líderes empresariais. O CEO da Mercedes-Benz, Ola Källenius, que esteve no evento, comentou: “Em um mundo instável, sentimos que aqui há um ponto de estabilidade, com pessoas que conhecemos e em quem confiamos”.
Ainda assim, Pimenta reconhece que a guerra tarifária preocupa. As tarifas sobre o aço chinês, por exemplo, não afetam diretamente a Vale, mas podem ter repercussões indiretas. “Precisamos monitorar até onde essas tarifas vão chegar, pois podem impactar o crescimento do PIB global”, explicou. Caso esse cenário se concretize, a demanda por commodities, incluindo minério de ferro, pode ser afetada.
No caso específico da China, a questão do minério de ferro esteve mais ligada à crise imobiliária, que já vinha impactando o setor antes mesmo das disputas comerciais. “A grande variável do minério de ferro é a produção de aço dentro da China”, explicou o executivo.
O setor imobiliário, que antes consumia cerca de 40% do aço chinês, desacelerou significativamente. No entanto, houve uma recomposição da demanda, com crescimento expressivo na manufatura. “O aumento na produção de carros, eletrodomésticos e outros setores industriais compensou essa queda, garantindo estabilidade no consumo de aço e, consequentemente, na demanda pelos nossos produtos”, destacou Pimenta.
Além da estabilidade econômica, China, Japão e Coreia do Sul, outro importante mercado da Vale, seguem comprometidos com a descarbonização da indústria. “Uma das razões da minha visita foi justamente avaliar esse compromisso. Queria entender se estavam recuando, mas saio daqui otimista”, afirmou o executivo.
No Japão, Pimenta se juntará à delegação de mais de cem empresários brasileiros que acompanham a visita de Estado do presidente Lula. Questionado sobre eventuais atritos entre o governo e a Vale durante a gestão anterior, ele garantiu que “a relação está muito boa”.












