Poucas pessoas têm tanta autoridade para avaliar o trabalho de Gabriel Galípolo, o próximo presidente do Banco Central (BC), quanto o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.
Além da paixão em comum pela Sociedade Esportiva Palmeiras, Galípolo e Belluzzo compartilham uma longa relação acadêmica e intelectual. Na dedicatória de sua dissertação de doutorado em economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Galípolo se declara “pretensiosamente” um “afilhado” de Belluzzo, que foi seu professor na graduação. Contudo, aos 82 anos, Belluzzo relativiza a reverência: “Somos companheiros”, afirmou em entrevista ao Seu Dinheiro .
Essa parceria se traduz na coautoria de três livros publicados pela editora Contracorrente:
- Manda quem pode, obedece quem tem prejuízo (2017),
- A deficiência na abundância capitalista (2019)
- Dinheiro: o poder da abstração real (2021).
Segundo Belluzzo, a colaboração com Galípolo é constante e enriquecedora. “Somos companheiros na elaboração dos livros e na discussão econômica o tempo todo”, destacou.
Um perfil dialogador
Antes mesmo de ser nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o cargo de diretor de política monetária do BC, o perfil heterodoxo de Galípolo e sua proximidade com economistas desenvolvimentistas, como Belluzzo, geraram inquietação em parte do mercado financeiro. A votação dividida no Comitê de Política Monetária (Copom), em maio, evidenciou uma suposta polarização interna entre grupos alinhados ao mercado e ao governo.
No entanto, Galípolo conseguiu atenuar esses recebimentos com uma das suas principais qualidades: a capacidade de dialogar. “Ele tem essa habilidade de comunicação, de conversar com todos”, elogiou Belluzzo.
Mudança de tom ou adaptação ao cargo?
Após ser indicado à presidência do BC, Galípolo desenvolveu um tom mais cauteloso, em alguns momentos até mais conservador que seu antecessor, Roberto Campos Neto. Para Belluzzo, isso não representa uma mudança de discurso, mas sim o reconhecimento das responsabilidades inerentes ao serviço público. “Gabriel entende a função pública. Muitas vezes, isso exige renúncias pessoais em prol do interesse coletivo”, explicou.
Belluzzo também ressalta que Galípolo sabe diferenciar sua atuação acadêmica das demandas práticas dos cargos públicos que ocupou, como diretor do BC, secretário executivo do Ministério da Fazenda sob Fernando Haddad e secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo durante o governo José Serra.
Expectativas sobre juros e câmbio
À frente do Banco Central, Galípolo tem demonstrado que sua indicação por Lula não é a saída de medidas impopulares. Durante o atual ciclo de aquisições, as decisões do Copom foram unânimes em favor da alta dos juros. Em dezembro, a elevação da Selic para 12,25% ao ano e a retomada do forward guidance sinalizando novas altas nos primeiros meses de sua gestão.
Em relação ao câmbio, Belluzzo criticou a aparente inércia do BC diante da valorização do dólar acima de R$ 6 no passado, comparando com as mais de 100 intervenções cambiais realizadas sob o governo Bolsonaro. Apesar de considerar que as decisões são colegiadas, acredita que Galípolo poderá ser mais envolvido na utilização de operações de swap cambial para estabilizar a moeda.
Um líder para um momento desafiador
Galípolo assume o Banco Central em um contexto delicado, no qual muitos veem a instituição como a principal garantidara da renovação fiscal do Brasil. Para Belluzzo, entretanto, não há dúvida: “Gabriel Galípolo é uma pessoa certa para comandar o Banco Central neste momento.”












