Investidores interessados no plano de concessão de rodovias federais e estaduais pisaram no freio por causa dos efeitos colaterais do pacote de corte de gastos do presidente Lula.
Além da alta dos juros, que em contratos futuros já estão próximos de 14% ao ano, o governo mudou a tributação de quem investe em debêntures incentivadas de infraestrutura.
Esses papéis são um mecanismo importante de financiamento das concessionárias como alternativa aos juros mais elevados do mercado financeiro e do limite de recursos do BNDES.
Segundo Ralph Gustavo Rosenberg, gestor de fundos de infraestrutura na Perfin Asset, o problema das medidas anunciadas pelo ministro Fernando Haddad (Fazenda) é a falta de previsibilidade.
O executivo diz que os investidores podem não desfrutar das vantagens econômicas das debêntures incentivadas, reduzindo o volume dos aportes.
“A gente vinha precificando com os custos padrões, mas agora a gente não sabe se vai ter volume para esse tipo de empréstimo”, disse.
Rosenberg informa que a Perfin tem R$ 25 bilhões de investimentos contratados, mas há uma dúvida se haverá financiamento para isso. “Qual será o custo da emissão da dívida?”, disse.
Isso preocupa o mercado no momento em que as incertezas sobre as medidas anunciadas com o novo pacote fiscal elevam as previsões para a inflação e, consequentemente, para a taxa básica de juros, a Selic.
Paralelamente, a alta do dólar acaba sendo um efeito colateral que também preocupa.
Diante desse cenário, Rosenberg diz que a Perfin, que estava animada com os certames e chegou a fazer proposta para o último leilão da Nova Raposa, organizada pelo governo de São Paulo, vai começar a colocar um pé no freio.
“A gente vai olhar para os projetos, mas com uma luz amarela acesa”, diz.
Embora o apetite dos investidores para novos projetos esteja elevado, na prática, eles ficaram mais seletivos na escolha dos empreendimentos.
O dono de uma grande gestora de investimento que preferiu não se identificar disse ao Painel S.A. que o pacote “foi um tiro no pé” dos investidores, porque mexeu na tributação deles.
Até o momento, as medidas anunciadas não mudaram o rendimento das debêntures de infraestrutura, bem como os dividendos das concessionárias, que continuam isentos, sem retenção na fonte.
No entanto, a soma desses rendimentos no ano elevará a base de renda do investidor para um nível de alíquota maior. Ainda segundo esse executivo, o retorno dos investimentos (com as debêntures) será tributado na soma da renda total.
Na sua avaliação, não há problema em tributar os mais ricos, mas isso penaliza as empresas porque desestimula o uso das debêntures.
Nesta semana, a ausência de interessados no leilão da chamada “Rota da Celulose” em Mato Grosso do Sul já reflete essa mudança.
Com diversos projetos em andamento, pelo Ministério de Transportes e pelos governos estaduais, os investidores passaram a olhar com mais cuidado cada projeto.
O governo de São Paulo, que mantém um plano ousado de concessão de rodovias, também está em alerta com essa nova situação.












