O economista Marcos Lisboa, crítico do pacote de ajuste fiscal anunciado recentemente, afirmou em entrevista à Folha de S.P que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) falhou em entregar a prometida solidez fiscal de longo prazo. Lisboa destacou que essa era a principal aposta dos investidores no início da gestão, mas os resultados mostraram que “deu errado”.
Ex-secretário de Política Econômica no primeiro mandato de Lula, Lisboa refutou a ideia de que a negativa do mercado financeiro às medidas seja fruto de especulação. Para ele, o pacote apresentou medidas tímidas e mal projetadas, com impacto marginal no controle do crescimento das despesas da Previdência Social.
Críticas à estratégia fiscal e tributária
Lisboa apontaram que o governo optou por uma abordagem retórica de polarização, colocando temas complexos como a isenção do Imposto de Renda para rendas de até R$ 5.000 ao lado de uma tributação mínima para os super-ricos. Ele descreveu a medida como uma tentativa de “acalmar certos grupos”, mas que acabou aumentando as incertezas.
Sobre o imposto mínimo, Lisboa afirmou que, embora a intenção seja válida, a execução falhou. Ele explicou que as distorções tributárias no Brasil, como os regimes do Simples e do lucro presumido, favorecem grupos específicos, mas as medidas propostas não enfrentam o problema de forma estruturada.
Impacto sobre o mercado e desafios futuros
Lisboa destacou que o pacote fiscal gerou um “ruído enorme” e comprometeu a confiança no futuro econômico do país. Segundo ele, o déficit fiscal brasileiro, atualmente em torno de R$ 350 bilhões, exige medidas mais robustas e transparentes. A falta de clareza e a insistência em soluções genéricas afugentam os investidores de longo prazo, resultando na alta do dólar e nas taxas de juros.
Ele também ressaltou que o Brasil desperdiçou oportunidades em momentos de crescimento econômico, preferindo adiar ajustes estruturais para períodos de crise, quando o impacto social é mais severo.
Futuro incerto e necessidade de ação
apesar das críticas, Lisboa acredita que ainda há espaço para o governo corrigir seus erros. No entanto, ele questiona a disposição da gestão atual em enfrentar problemas estruturais. “O governo parece não querer, de fato, resolver as questões existentes”, afirmou
Sobre Marcos Lisboa
Economista e ex-presidente do Insper, Marcos Lisboa foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no primeiro governo Lula (2003-2005). Doutor em Economia pela Universidade da Pensilvânia, foi professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Universidade Stanford.
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