A escassez de mão de obra qualificada tem pressionado o mercado de trabalho no Brasil e levado empresas de diversos setores a adotarem soluções alternativas, como o rodízio de equipes e o aumento de investimentos em capacitação. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), o setor de construção civil é um dos mais afetados, registrando em setembro a maior queixa de falta de profissionais dos últimos dez anos.
De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o Brasil criou 247.818 vagas formais em setembro. O setor de serviços liderou a geração de empregos, com 128,4 mil novas vagas, seguido pela indústria (59,8 mil), comércio (44,6 mil) e construção civil (17 mil). No entanto, o ritmo acelerado de contratações não tem sido suficiente para suprir a demanda por profissionais qualificados, especialmente no setor de construção, onde 29,4% dos empresários apontaram a escassez de mão de obra como principal obstáculo para o crescimento dos negócios, segundo o FGV Ibre.
A coordenadora de Projetos de Construção do FGV Ibre, Ana Maria Castelo, destaca que o cenário atual lembra os anos pré-crise de 2014, quando o aquecimento do setor imobiliário impulsionou a busca por engenheiros e outros profissionais, inclusive de outros países. “Apesar de o crescimento ser mais moderado atualmente, a falta de trabalhadores qualificados ainda é uma preocupação relevante para o setor”, afirma Castelo.
Estratégias Empresariais para Retenção e Capacitação
Para contornar as dificuldades de contratação, muitas empresas estão investindo em treinamentos internos e na retenção de profissionais qualificados. Um levantamento do FGV Ibre realizado em julho mostrou que 51,5% das empresas da construção estão apostando em capacitação de pessoal, enquanto 33,1% optaram por aumentar a remuneração e 46% implementaram o rodízio de equipes para suprir lacunas temporárias em projetos.
O vice-presidente de recursos humanos da Saint-Gobain para a América Latina, Gustavo Siqueira, relata que a empresa tem priorizado um ambiente de trabalho atrativo e o desenvolvimento contínuo dos colaboradores. “Nossa estratégia é fortalecer as habilidades internas e, ao mesmo tempo, manter a motivação e retenção da equipe”, explica Siqueira. A Saint-Gobain também investe em programas de mentoria e capacitação, como o desenvolvimento de trilhas técnicas para jovens talentos.
Indústria e Setor de Calçados Também Sentem os Efeitos da Escassez
A situação é similar em outras áreas da economia, como o setor calçadista. A Kidy, fabricante de calçados, vem enfrentando a necessidade de expandir sua equipe para atender à alta demanda. Segundo o gerente de recursos humanos da empresa, João Marcelo Fernandes, a companhia investiu em capacitação de funcionários, com apoio de programas do Senai, e criou um programa de aprendizes para formar jovens profissionais. “Nosso objetivo é tornar os cargos mais atrativos para que os funcionários permaneçam e se desenvolvam internamente”, comenta Fernandes.
O presidente executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira, observa que a falta de pessoal qualificado reflete um mercado em expansão, mas também destaca a concorrência com outros setores, especialmente os digitais, que atraem jovens para novas carreiras. “Estamos competindo pelo mesmo perfil de profissional, algo que não víamos em anos anteriores”, diz Ferreira.
Desafios e Perspectivas
O diretor executivo de Tecnologia da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), João Alfredo Delgado, ressalta que a crescente digitalização e a chamada Indústria 4.0 aumentaram a demanda por profissionais técnicos, principalmente na área de automação e programação. Para ele, o desafio é mostrar aos jovens que a indústria também oferece oportunidades atraentes e inovadoras. “O setor é um grande parque de diversões para quem gosta de tecnologia, mas ainda precisa ser mais visível para as novas gerações”, comenta Delgado.
A escassez de mão de obra qualificada é um desafio que atravessa setores e impacta diretamente o ritmo de crescimento das empresas. A expectativa é de que, com a manutenção de investimentos em qualificação e a adaptação das empresas às novas exigências do mercado, seja possível amenizar a falta de profissionais e garantir o desenvolvimento contínuo do setor produtivo brasileiro.












