A montadora chinesa BYD anunciou, nesta terça-feira o início da produção local de carros eletrificados. E prometeu que o Brasil será o primeiro país das Américas a receber um sistema de recarga ultrarrápida que começa a ser instalado na China.
A fábrica ocupa o terreno utilizado até 2021 pela Ford para produzir carros em Camaçari, na Bahia. Os anúncios foram feitos no primeiro e único galpão pronto até agora, nesta terça-feira. Esvaziado de autoridades, o evento contou apenas com a presença do governador Jerônimo Rodrigues e da ministra da cultura, Margareth Menezes.
A CEO da BYD Américas e Europa, Stella Li, disse que a fábrica será a maior da empresa fora da Ásia. A capacidade produtiva inicial será de 150 mil carros por ano, podendo chegar a 300 mil.
O local tem atualmente 156 mil metros quadrados e ficará responsável, apenas, por montar kits de peças de carros que virão pré-fabricados da China. A BYD disse ter iniciado a qualificação de 106 empresas brasileiras de autopeças.
A nacionalização da produção é ponto central, porque é cobrado da Anfavea, a associação que reúne as montadoras com fabricação nacional, bem como da indústria de autopeças e especialistas do setor.
O vice-presidente sênior Alexandre Baldy disse que o local representa um marco para a indústria e cutucou as empresas que criticam o modelo inicial de produção da BYD.
“A velha indústria não está inquieta a toa. Está inquieta e hoje perceberá que viemos aqui não para montagem de cena. Ela pode se tornar cada dia mais inquieta por todo o Brasil. Não é só pra montagem de carro, mas produção nacional, geração e desenvolvimento no Brasil com cadeia produtiva.”
O consultor Milad Kalume Neto destaca que o início da fabricação local representa um marco importante para as montadoras chinesas, mas pondera que seria importante ter uma transferência tecnológica maior, com produção de baterias em solo nacional.
“A grande questão é que a transferência de tecnologia deveria ocorrer e, principalmente, na questão das baterias. Mas se a gente olhar sobre o aspecto atual, a Toyota também importa absolutamente todas as baterias. Tem que haver a produção local de acordo com o volume de vendas.”
Apesar de estar anunciando o início dos trabalhos na nova fábrica, a BYD vai começar montando carros nos modelos CKD e SKD – quando a empresa importa kits de peças e apenas, literalmente, monta o carro. Esse modelo tem baixo índice de nacionalização de peças e requer mão de obra menos qualificada.
Por isso, está sujeita a tarifas que variam de 5 a 20%. Recentemente, a BYD encampou junto ao governo federal uma redução dessas tarifas para 5% para elétricos e 10% para os híbridos.
Cassio Pagliarini, sócio da consultoria Bright Consulting, destaca que essa redução de impostos não seria benéfica para a economia brasileira:
“Beneficia a quem tem fabricação no exterior, tem capacidade de exportação e baixaria provavelmente os custos dele aqui no Brasil. Não é algo benéfico nem para o governo brasileiro, nem para os brasileiros em si – porque perdem empregos que poderiam ser localizados aqui, estão localizados na planta de produção – e nem para as montadoras que estão trabalhando segundo as regras que estão definidas aqui.”
O anúncio é feito exatamente no dia em que ficará mais caro, mais uma vez, para as montadoras importarem veículos eletrificados ao Brasil. O imposto de importação dos carros híbridos subiu de 25 para 30%, a dos híbridos plug-in foi de 20 para 28% e a dos elétricos subiu de 18 para 25%. A medida tem como objetivo incentivar os investimentos para produção local.












